sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Ponte do Trutario, quando os interesses pessoais se conflitam com o ambiental



Em 21 de novembro completou-se um mês desde que um caminhão basculante da prefeitura de Bocaina de Minas, carregado de saibro, ao tentar atravessar a “Ponte do Trutario”, no Vale de Sta Clara (Região de Visconde de Mauá), derrubou-a. O basculante e sua carga foram parar dentro do Córrego do Morro Cavado, a poucos metros de sua junção com o Ribeirão Santa Clara, que mais a frente deságua no Rio Preto. O acidente ocorreu em área vizinha ao Parque Nacional do Itatiaia e no interior da APA da Serra da Mantiqueira.

A ponte, de baixa estatura, era a única via de acesso a uma parte do vale com residentes e comércios, e já vinha há muito tempo sendo objeto de reclamações de seus usuários justamente por não a considerarem segura.

O caminhão da prefeitura e sua carga derrubaram a ponte e caíram no 
Córrego do Morro Cavado

A carga do caminhão estava destinada a serviços de manutenção da estrada que cruza a ponte.

Desde já lembremos que Bocaina de Minas é um município rural, com baixa arrecadação, aonde praticamente todas as estradas não possuem pavimentação e nem serviços regulares de conserva. No panorama geral de abandono das estradas do município, os motivos mais plausíveis para aquela estrada estar sendo contemplada com serviços de manutenção são: a pressão do setor comercial turístico e o fato do vice-prefeito possuir residência lá. Aliás, pouco depois do acidente, o vice-prefeito já estava no local assumindo o comando da situação.

O problema ocorreu em uma sexta-feira, e logo começou a preocupação não só “in loco”, mas também online em rede social, sobre o que fazer com o movimento turístico do final de semana. A bem da verdade havia também, aqueles que estavam preocupados com a segunda-feira, dia de trabalho e de escola para as crianças; online, houve até alguns poucos que se manifestaram preocupados com as condições do córrego. Houve um vereador que, aparentemente tentando tirar algum proveito da situação, publicou cópia de ofício encaminhado a prefeitura meses antes solicitando a reforma da ponte.

Foi sob estas condições que se decidiu por improvisar uma ponte provisória a partir da imersão de manilhas de concreto no córrego e o subseqüente aterramento delas, provavelmente com parte do material que o basculante já estava despejando sobre o córrego.

Máquina da prefeitura retirando material do basculante do caminhão e
 depositando-o na margem do córrego completamente assoreado.

Neste ponto, é bom frisar a maneira como a população local lida com a legislação ambiental e seus órgãos fiscalizadores, desconsiderando ambas por completo sempre que existe qualquer chance de obterem algum benefício. Porque como podemos assistir através das mídias de notícias, quando não há benefício direto para a população, ela sempre tem clamado por punição aos infratores em tudo, menos nos crimes contra o meio ambiente.

E também é curioso constatar, como todos eles intuem que se está fazendo coisa errada, pois começaram a reclamar e a intimidar as pessoas que publicaram informes de fotos, vídeos ou comentários do acidente online.



Como se já não bastasse acharem aceitável a solução provisória proposta de assorear uma parte do córrego para servir de passagem a pedestres e veículos, não ocorreu a ninguém que as chuvas previstas para aquele final de semana afetariam o serviço. Conclusão quando as chuvas fortes chegaram no final daquela tarde. Pouco depois do trabalho feito, da estrada ser reaberta e dos moradores e comerciantes comemorarem o seu feito e congratularem o vice-prefeito. O córrego encheu, e suas águas levaram tudo.

Com relação ao vice-prefeito, algumas outras considerações que aparentemente foram esquecidas na euforia da reabertura provisória da estrada: Ele já possuía 4 anos de mandato na prefeitura e, mesmo tendo residência no local, e atravessando-a com freqüência não tratou da reforma da ponte antes de sua queda. Não foi capaz de imaginar que ela fosse ceder com o peso do caminhão enviado para a realização de um serviço de conserva de estrada que beneficiaria diretamente a ele, e a seus vizinhos. Na sua ânsia de se ver livre de um problema, que sob certos aspectos foi criado por ele mesmo, não se deu conta dos novos problemas que ele estava criando.

Depois que as águas levaram a improvisação, alguém colocou
uma tábua para auxiliar na travessia de pedestres.

E para aqueles que ainda desejam defendê-lo, por terem se beneficiado de suas decisões, vale lembrar de um vídeo postado em rede social aonde ele fala que o INEA teria concordado com suas ações. Ou seja, ele se deu conta do que tinha feito, e ainda estava tentando se dirimir da culpa alegando que um órgão licenciador de um estado vizinho, portanto fora de sua área de atuação e jurisdição, estaria de acordo com as coisas feitas. Quando fomos procurar pelo possível responsável, no INEA, que teria afirmado tal coisa em nome do órgão, não encontramos ninguém disposto a assumir a autoria do comentário.

Doze dias mais tarde, sem que houvesse qualquer projeto de cálculo de cargas, uma nova ponte de madeira estava erguida no local.

Ou seja, quando a ponte antiga estava em más condições, não havia recursos para consertá-la, mas na hora em que ela caiu, aparentemente os recursos não estavam tão difíceis de conseguir.

Um mês depois, em 22 de novembro, as manilhas ainda estavam lá
abandonadas no córrego

No dia 22 de novembro, 32 dias depois do ocorrido, já havia outro caminhão basculante carregado de material passando pela estrada que levava à nova Ponte do Trutario, mas os restos das manilhas usadas na ponte provisória permaneciam largadas dentro do córrego, parcialmente soterradas pelo restante de material que as águas do córrego ainda não levaram.

Pelo menos a ponte nova é de madeira. 

A nova Ponte do Trutario, projeto executado no olho. 

Crédito: Imagens e vídeo retirados da Internet

Texto de autoria de Marcelo Brito