Em 21 de novembro completou-se um mês desde que um caminhão basculante
da prefeitura de Bocaina de Minas, carregado de saibro, ao tentar atravessar a “Ponte do Trutario”, no Vale de Sta Clara (Região de Visconde de Mauá ), derrubou-a. O
basculante e sua carga foram parar dentro do Córrego do Morro Cavado, a poucos
metros de sua junção com o Ribeirão Santa Clara, que mais a frente deságua no
Rio Preto. O acidente ocorreu em área vizinha ao Parque Nacional do Itatiaia e no interior da APA da Serra da Mantiqueira.
A ponte, de baixa estatura, era a única via de acesso a uma
parte do vale com residentes e comércios, e já vinha há muito tempo sendo objeto
de reclamações de seus usuários justamente por não a considerarem segura.
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| O caminhão da prefeitura e sua carga derrubaram a ponte e caíram no Córrego do Morro Cavado |
A carga do caminhão estava destinada a serviços de manutenção
da estrada que cruza a ponte.
Desde já lembremos que Bocaina de Minas é um município
rural, com baixa arrecadação, aonde praticamente todas as estradas não possuem
pavimentação e nem serviços regulares de conserva. No panorama geral de
abandono das estradas do município, os motivos mais plausíveis para aquela
estrada estar sendo contemplada com serviços de manutenção são: a pressão do
setor comercial turístico e o fato do vice-prefeito possuir residência lá. Aliás,
pouco depois do acidente, o vice-prefeito já estava no local assumindo o
comando da situação.
O problema ocorreu em uma sexta-feira, e logo começou a
preocupação não só “in loco”, mas também online em rede social, sobre o que
fazer com o movimento turístico do final de semana. A bem da verdade havia
também, aqueles que estavam preocupados com a segunda-feira, dia de trabalho
e de escola para as crianças; online, houve até alguns poucos que se manifestaram
preocupados com as condições do córrego. Houve um vereador que, aparentemente
tentando tirar algum proveito da situação, publicou cópia de ofício encaminhado
a prefeitura meses antes solicitando a reforma da ponte.
Foi sob estas condições que se decidiu por improvisar uma
ponte provisória a partir da imersão de manilhas de concreto no córrego e o subseqüente
aterramento delas, provavelmente com parte do material que o basculante já
estava despejando sobre o córrego.
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| Máquina da prefeitura retirando material do basculante do caminhão e depositando-o na margem do córrego completamente assoreado. |
Neste ponto, é bom frisar a maneira como a população local lida
com a legislação ambiental e seus órgãos fiscalizadores, desconsiderando ambas por
completo sempre que existe qualquer chance de obterem algum benefício. Porque
como podemos assistir através das mídias de notícias, quando não há benefício direto
para a população, ela sempre tem clamado por punição aos infratores em tudo,
menos nos crimes contra o meio ambiente.
E também é curioso constatar, como todos eles intuem que se
está fazendo coisa errada, pois começaram a reclamar e a intimidar as pessoas
que publicaram informes de fotos, vídeos ou comentários do acidente online.
Como se já não bastasse acharem aceitável a solução provisória
proposta de assorear uma parte do córrego para servir de passagem a
pedestres e veículos, não ocorreu a ninguém que as chuvas previstas para aquele
final de semana afetariam o serviço. Conclusão quando as chuvas fortes chegaram
no final daquela tarde. Pouco depois do trabalho feito, da estrada ser reaberta
e dos moradores e comerciantes comemorarem o seu feito e congratularem o vice-prefeito. O córrego
encheu, e suas águas levaram tudo.
Com relação ao vice-prefeito, algumas outras considerações que
aparentemente foram esquecidas na euforia da reabertura provisória da estrada:
Ele já possuía 4 anos de mandato na prefeitura e, mesmo tendo residência no
local, e atravessando-a com freqüência não tratou da reforma da ponte antes de
sua queda. Não foi capaz de imaginar que ela fosse ceder com o peso do caminhão
enviado para a realização de um serviço de conserva de estrada que beneficiaria
diretamente a ele, e a seus vizinhos. Na sua ânsia de se ver livre de um
problema, que sob certos aspectos foi criado por ele mesmo, não se deu conta
dos novos problemas que ele estava criando.
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| Depois que as águas levaram a improvisação, alguém colocou uma tábua para auxiliar na travessia de pedestres. |
E para aqueles que ainda desejam defendê-lo, por terem se
beneficiado de suas decisões, vale lembrar de um vídeo postado em rede
social aonde ele fala que o INEA teria concordado com suas ações. Ou seja, ele
se deu conta do que tinha feito, e ainda estava tentando se dirimir da culpa alegando que um órgão licenciador de um estado vizinho, portanto fora de sua área de atuação e jurisdição, estaria de acordo com
as coisas feitas. Quando fomos procurar pelo possível responsável, no INEA, que
teria afirmado tal coisa em nome do órgão, não encontramos ninguém disposto a
assumir a autoria do comentário.
Doze dias mais tarde, sem que houvesse qualquer projeto de cálculo
de cargas, uma nova ponte de madeira estava erguida no local.
Ou seja, quando a ponte antiga estava em más condições, não
havia recursos para consertá-la, mas na hora em que ela caiu, aparentemente os
recursos não estavam tão difíceis de conseguir.
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| Um mês depois, em 22 de novembro, as manilhas ainda estavam lá abandonadas no córrego |
No dia 22 de novembro, 32 dias depois do ocorrido, já havia outro caminhão
basculante carregado de material passando pela estrada que levava à nova Ponte
do Trutario, mas os restos das manilhas usadas na ponte provisória permaneciam
largadas dentro do córrego, parcialmente soterradas pelo restante de material
que as águas do córrego ainda não levaram.
Pelo menos a ponte nova é de madeira.
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| A nova Ponte do Trutario, projeto executado no olho. |
Texto de autoria de Marcelo Brito








